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Instintivo



(...) A face empalideceu e as mãos frias abraçaram a xícara quente do café que tomava antes da aula, como se quisesse esquentar sua alma trêmula de emoção por estar novamente em frente ao seu amado Erick. Quanto tempo passou desde a última vez em que se viram! Tempo que serviu para confirmar o sentimento que Scarllet tanto queria fugir, pela agonia de não conseguir tirá-lo dos seus mais profundos pensamentos, pelo ciúme de pensar que o seu amor já não era mais recíproco. Sentiu fúria de si mesma ao vê-lo acariciando a mão da moça que estava ao seu lado, sua nova paixão, imaginando que certamente o seu pedido para esquecê-la tinha obtido sucesso.

Conteve-se, levantou a cabeça e olhou fixamente em direção a Erick. Olhavam-se como se não existisse mais ninguém ao redor, um olhar que dizia mais do que qualquer palavra pudesse ser expressada em mistos de rancor e felicidade, apenas pelo entusiasmo de estarem próximos novamente, o sentimento que brota de almas que anseiam uma pela outra, assim como a corça pela água.

A amargura tomou Scarllet naquele momento; sentia necessidade de sair do recinto antes que lágrimas escorressem pelo seu rosto. Levantou-se e foi até o balcão pagar o café, que não conseguiu tomar sequer a metade. A presença de Erick a afetou de uma maneira que surpreendeu até a si própria, com todo seu orgulho de mulher indomada.

De repente, sentiu alguém se aproximando de suas costas; o cheiro suave denunciou o jovem rapaz, o mesmo cheiro impregnado na camisa que Scarllet fez questão de guardar pelas lembranças dos momentos de amor e desejo, e que, por várias noites, serviu como lenço para suas lágrimas de saudade.

Sim, o cheiro de Erick deixou-a sem ação; teve medo de ser imprudente outra vez, mas sentiu suavemente o toque quente dos lábios do amado em seu ouvido e sorriu ao ouvi-lo dizer:

— Foi em você que eu pensei durante todo esse tempo que estive ausente!



"Que só eu que podia
Dentro da tua orelha fria
Dizer segredo
s de liquidificador..."

(Codinome Beija-Flor-Cazuza)



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Coisas que só eu sei



— “Quem quer que sejas” — disse o cetim — “não te gabo o gosto! Tomara eu saber o que vês em mim, que tanta impressão te faz!”

— “Nada” — respondeu o veludo.

— “Então, deixa-me, ou diz-me alguma coisa, ainda que seja uma sensaboria, mais eloquente que o teu silêncio.”

— “Não te quero embrutecer. Sei que tens muito espírito, e seria um crime de lesa-Carnaval se te dissesse alguma dessas graças salobras, capazes de fazer calar, para todo o sempre, um Demóstenes de dominó.”


(Camilo Castelo Branco)


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Uma vez Biquini, sempre Cavadão.



Desde cedo já começa a especular-se quem serão as principais atrações da Feira do Côco, em São Gonçalo, Distrito de Sousa-PB, o que, para mim, representa uma das melhores festividades da região. Antes mesmo de iniciar o evento, lá vamos nós aos pitacos de qual banda de rock será a próxima convocada. Pitaco vai, pitaco vem, eis que sai a programação da Feira 2011, deixando todo mundo boquiaberto ao ver que a banda Biquini Cavadão nos daria o ar da sua graça/som pela 3ª vez, 2ª consecutiva. Isso mesmo, os moçoilos estiveram por aqui em 2007, 2010 e agora, no dia 11/11/2011. Essa repetitividade deixou muita gente desgostosa, já que há ainda algumas bandas de rock no cenário nacional e o povo quer curtir esses outros sons. Eu mesma exclamei: “Biquini de novo! Se tornou a banda propaganda da Feira do Côco!”

Algumas pessoas me disseram que não iriam porque já tinham ido no ano passado. Confesso que também relutei na dúvida do “vou ou não vou”. Daí, de repente, me cai a ficha de que, no ano inteiro, todas as festividades sempre trazem as mesmas bandas, suas Garotas Suadas da vida, que eu faço questão de nem aparecer por lá. Por que então, quando finalmente um evento traz uma banda que fez e faz história no rock nacional, com seus 25 anos de carreira, e que deixam essa rapaziada de hoje no chinelo, eu me jogaria na ociosidade só por ter ido aos dois shows anteriores? Não, esse bisar de canções não me cansa, e quantos outros mais houver, eu irei.



 "Me deixe cavalgar nos seus desatinos,
Nas revoadas, redemoinhos,
Vento, ventania, me leve sem destino.
Quero juntar-me a você
E carregar os balões pro mar,
Quero enrolar as pipas nos fios,
Mandar meus beijos pelo ar
Vento, ventania,
Agora que estou solto na vida
Me leve pra qualquer lugar,
Me leve mas não me faça voltar...

(Vento Ventania)


Em meio a tantas pessoas, algumas que talvez nem sequer conheçam a trajetória da banda, mas que estavam cantando as músicas como se fossem hinos, pulando, curtindo; outras que talvez os acompanhem desde o começo; outras que, com gaiatice, se estranhavam querendo solucionar na porrada e tirando a paz dos que pretendiam curtir o show; e eu, além de eufórica por ter ficado em frente ao palco (turma do gargarejo), ainda divagava cá com meus botões: quanta história têm esses caras pra contar, e que satisfação a minha em estar ali, novamente!

Já dizem alguns amigos meus que quem faz a festa prestar é você mesmo, o seu astral, a sua vontade de se divertir. Sendo assim, esse foi para mim o 3º e melhor show do Biquini Cavadão! O corpo dolorido e a garganta arrasada são provas integrais disso.



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Quem era ela?


"O que estaria por trás daquele sorriso? Tristeza camuflada? Vingança? Frieza? Talvez fosse apenas felicidade, simples e óbvia. Mas quem disse que ela era óbvia? Se nem Freud conseguiu dizer com exatidão, apenas revelou que era um continente obscuro. Como ela, que nada entendia de comportamento humano, saberia indicar a saída do labirinto? Era como desvendar o sorriso de Monalisa.

Quantas habitavam sua mente, seus quereres e qual predominava?

Descobriu que as pessoas não mudam; ela não mudou. Continuava ciumenta, teimosa, encrenqueira e sabia ser doce, contar histórias, inventar personagens, mudar as lentes da realidade em busca do cenário do sonho...

Sentia saudade do cheiro da verdade, daqueles que dizem o que pensam, mas, principalmente, daqueles que não fazem a menor ideia de para onde estão indo, por não possuírem a arrogância dos que sabem tudo. Preferiu deixar suas gavetas internas bagunçadas; era assim que se achava.

Sentia as pinceladas do vento no rosto e gostava do arco-íris feito de riso. Ela era a pressa encolhida no meio da timidez ou a garra que a segurava na loucura... Todos os medos não cabiam na proporção exata; eram eles que a cobriam de luz e, às vezes, de escuridão.

Além de mulher, ela era o presente de um verão perfeito, o preto e branco ocasional do inverno e a presença inoportuna da primavera no meio de um outono esvoaçante.

Sim, ela preferia a incerteza dos amores amassados na gaveta do que a perfeição traiçoeira de um amor alinhado e démodé. Ela almejava as nuvens sem se importar com a indisposição da chuva, porque, além de secar-se sob o sol, ela pendurava todas as perguntas na cara do vento."


(R. Fagundes/J. Fuzetto)



/Eu sei que esses detalhes vão sumir na longa estrada,
Do tempo que transforma todo amor em quase nada.
Mas "quase" também é mais um detalhe.../


(Detalhes/R. Carlos) 




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